22 de fevereiro de 2006

240 minutos de Jazz no S. Luiz


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Conforme aqui anunciámos, realizou-se ontem/hoje o evento comemorativo dos 40 anos do programa 5 minutos de Jazz, apresentado semanalmente por José Duarte, a quem desde já endereçamos os parabéns pelo seu trabalho em prol do som da surpresa.

Pelo palco do Jardim de Inverno do S. Luiz desfilaram vários músicos de jazz portugueses (e não só), mas infelizmente outros compromissos inadiáveis só nos permitiram assistir já às actuações de Paula Oliveira/Bernardo Moreira e de Jacinta.

Duas cantoras com projectos discográficos novos e distintos e que conhecíamos mal.

Duas actuações, também, completamente distintas.

O projecto da dupla Paula Oliveira e Bernardo Moreira foi absolutamente surpreendente pela alma que a cantora e os seus músicos colocam em temas populares do cancioneiro nacional, reinterpretando-os e adensando a sua força anímica e musical. Paula Oliveira é hoje uma cantora madura, que domina tecnicamente o seu aparelho vocal e que o utiliza ao serviço da música, qb, ora apelando aos graves ora "espremenendo" uns bonitos agudos. Mas sobretudo o que impressiona mais favoravelmente é o bom gosto na modulação vocal, o conhecimento que revela dos temas e a capacidade de neles "encaixar" algo de novo, que não só não destoa como parece ter estado sempre lá. É, em suma, uma belíssima homenagem à música portuguesa e aos seus autores originais. Este grupo actua na Festa do Jazz, no S. Luiz, dia 2 de Abril e JNPDI! recomenda vivamente a sua audição, mesmo a quem não gosta de Jazz.

Já sobre o projecto de Jacinta não podemos infelizmente dizer o mesmo, o que muito nos custa pois esta cantora, talentosa sem dúvida, vinha de uma fasquia muito alta com o seu primeiro CD, onde efectivamente tinha demonstrando a sua qualidade e diferença.

Sucede que para se ser um bom artista não basta ter apenas talento. É preciso saber escolher o repertório, os músicos e os caminhos por onde se leva o talento.

Ora em todos estes aspectos nos pareceu, sinceramente, que Jacinta é vítima de um grande equívoco.

O repertório apresentado, baseado na adaptação para português de standards, revelou-se quanto a nós uma má opção, sobretudo porque não só não funciona, como desvaloriza os temas originais. Tiago Torres da Silva, que tão belo trabalho tinha feito com o guitarrista Pedro Jóia, não conseguiu aqui captar a essência dos temas, nem sequer respeitar a sua mensagem original. Quanto ao repertório convém ainda acrescentar que a maturidade do artista lhe deve ditar o que pode ou não pode cantar, ou o que deve e não deve cantar. Pelo que vimos, Jacinta não pode/não deve cantar temas do cancioneiro brasileiro e muito menos um tema como "My heart belongs to daddy". E porquê? Porque na interpretação do primeiro falta-lhe o balanço e a dicção e no segundo falta-lhe convicção e percepção de como cantar o tema.

Agora a parte mais difícil para nós, porquanto quando falamos em músicos de jazz portugueses gostamos de o fazer por boas razões... Jorge Reis é conhecido pelo seu talento (embora este projecto não o evidencie), Rui Caetano é um bom pianista e está à altura, tal como o contrabaixista, disso não haja quaisquer dúvidas. Já o mesmo não se pode, porém, dizer do baterista que não percebeu (ou não quer perceber) que num combo liderado por uma voz é esta que tem de brilhar e não os efeitos ou pseudo-efeitos da bateria e que uma bateria saliente (para não dizer espalhafatosa e omnipresente) abafa a voz e tira-lhe a musicalidade e a beleza. Enfim, nada que não se resolva com uma boa dose de audição de bons discos e com um dose qb. de humildade e de esforço de compreensão de que o todo é a soma de todas as partes e todas devem trabalhar no mesmo sentido.

Finalmente, o caminho por onde se leva o talento... que está muito ligado à selecção do repertório. Percebemos que Jacinta queira trazer algo de original e ao mesmo tempo, cantando em português, conseguir alargar o público do jazz. Porém, o projecto tal como está corre o sério risco de não agradar nem a gregos nem a troianos. Ora todos sabemos a importância de um segundo disco numa carreira e Jacinta correu aqui porventura demasiados riscos...

Esperemos, porém, que daqui a uns anos possamos apenas dizer que se tratou de um mau passo numa brilhante carreira.

Já agora, quanto ao tema que hoje estreou, uma versão de Tiago Torres da Silva para o clássico "Prelude to a kiss", que a cantora referiu não estar ainda aprovado para edição... o nosso conselho é que sinceramente o deixe adormecer para a eternidade.

Estamos cientes da "dureza" desta nossa crítica (ainda assim refreada pelo respeito que nos merece a artista), mas tal não coloca em causa o talento nem apaga o excelente trabalho que Jacinta fez com a homenagem a Bessie Smith. Em 2004 assistimos, aliás, a uma brilhante performance de Jacinta com base nos temas deste mesmo disco e em temas como "My favorite things", esses sim revelando uma escolha adequada de repertório para a sua voz e uma capacidade de os recriar a um nível que então realmente nos surpreendeu muito positivamente.

Crítica é crítica e esta é não só fundamentada como sobretudo escrita com honestidade e sem outro fim que não seja o de relatar a opinião que colhemos do concerto a que hoje assistimos, aliás partilhada por pelo menos um destacado músico com quem tivemos oportunidade de conversar no final do espectáculo, procurando algo que pudesse tirar-nos a má impressão obtida.

Por isso reiteramos: Jacinta tem talento, pode ter uma bela carreira, mas precisa de ser realmente uma líder exigente e lúcida do seu projecto ou encontrar a parceria certa para o efeito.

1 Comments:

At quarta fev 22, 01:17:00 da tarde 2006, Anonymous Mateus said...

Muito boas tardes, João.
Este seu post vem ao encontro de algo que sinto à muito tempo: porquê cantar standards americanos, do chamado great american song book, já por tantas e tantos cantados? e porque não pegar no great portuguese song book? talvez a escolha não seja tão grande, não deve certamente, mas que há belas canções isso há.
E podem inclusivé cativar público que habitualmente não aprecia Jazz, como aliás o seu cometário refere em relação ao espectáculo da Paula Oliveira/Bernardo Moreira: lá estarei em princípio.
Posso recomendar-lhe um CD da Telarc? Tony deSare, cantor e pianista que actua muito no Birdland. No disco, Want You, o guitarrista é...Bucky Pizzarelli. Tive que comprar, claro!

 

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