19 de setembro de 2012

JNPDI: The End.


Chega hoje ao fim o blogue Jazz no País do Improviso.

Quando fundei este espaço, a 11 de Setembro de 2003, Portugal estava já mergulhado numa crise política, económica e, sobretudo, moral. Era o tempo do célebre “discurso da tanga” de Durão Barroso, então primeiro-ministro, que sucedera ao “pântano” de António Guterres.

Foi precisamente por causa deste cenário político que idealizei o título do blogue: num país em que a política é um eterno e mau exercício de improviso, nada melhor do que Jazz no País do Improviso...

Ironicamente, essa foi também a década (2000-2009) do maior boom jazzístico registado até à data entre nós, com a multiplicação de festivais, concertos, escolas, músicos, media, licenciaturas em jazz, etc.

Foi, pois, neste contexto que surgiu JNPDI, o primeiro grande blogue de jazz em Portugal.

Porém, há 9 anos atrás não podia imaginar que este blogue viria a ter a projecção que hoje se lhe reconhece, com cerca de 465 000 visitas acumuladas, e, muito menos, que viesse a consumir-me tantas e tantas horas, contabilizadas em mais de 3100 posts! Para quem gosta de médias, são cerca de 28 posts por mês…

JNPDI foi de facto uma tribuna importante para a divulgação do jazz, objectivo que sempre o norteou, e chegou a todo o mundo, sendo considerado em Espanha como o blogue de jazz de referência também nesse país.

Em jeito de puro serendipitismo, em que julgo saber ler os propósitos, JNPDI extingue-se no momento em que Portugal está de novo confrontado com uma crise, desta feita a maior crise do pós 25 de Abril, um tempo que Medina Carreira classificou recentemente de austeridade máxima e moralidade mínima.

O jazz, esse, está de boa saúde, ainda que pairem no horizonte nuvens carregadas de tensão e ameaças, nomeadamente com a diminuição dos meios de divulgação. De facto, nos últimos anos, desapareceram a única rádio dedicada ao jazz (Europa Lisboa) e a única revista de jazz (Jazz.pt). Também alguns festivais encerraram definitivamente ou emagreceram ao ponto de uma quase total descaracterização. Por outro lado, a porventura excessiva oferta de formação académica vai ter consequências inevitáveis num mercado que está já fragilizado a vários níveis.

Mas sejamos optimistas e acreditemos que é possível manter acesa a chama do jazz porque tal corresponde a perpetuar o importante farol de fraternidade, liberdade e diálogo que este representa desde a sua origem na Luisiana dos séculos XIX e XX.

Para tal é, porém, necessária cada vez mais uma mudança de mentalidades, que é transversal ao país. O futuro, creio-o bem, exige a aposta na união, a valorização do mérito e o foco nos destinatários finais das instituições, programas e projectos, sejam eles alunos ou ouvintes. Exige também visão, uma ideia federadora capaz de mobilizar todos os actores e agentes do mundo do jazz em Portugal. E exige, ainda, uma enorme generosidade por parte de todos os que fazem o jazz acontecer, partilhando com os seus concidadãos os seus conhecimentos, experiências e saberes.

Penso ter contribuído para tal ao longo destes 9 anos de JNPDI, mas também dos 7 livros que publiquei sobre a história do jazz em Portugal, da centena de artigos que desde 1995 venho publicando na imprensa generalista e especializada, do programa radiofónico “O Espírito do Jazz” (Antena2, 2011 – 2012), das exposições e roteiros do jazz, das inúmeras palestras e dos festivais e concertos que tenho organizado e dos dois discos produzidos.

Por diversas razões, pessoais e profissionais – a que não é alheia a forma como o jazz em Portugal se encontra institucionalizado, muito à semelhança de um poder político/partidário cristalizado e tribal – o tempo é agora de mudança de ciclo, com uma maior aposta em projectos profissionais cada vez mais incompatíveis com a manutenção deste fórum num patamar de qualidade aceitável.

Por todos estes motivos, este é o último post que publico em JNPDI. O blogue ficará todavia disponível para que os seus conteúdos possam continuar, como até aqui, a ser consultados em Portugal e no estrangeiro. Continuarei também disponível, tal como até aqui, para esclarecer quaisquer dúvidas e para apoiar trabalhos académicos na área do jazz, o que poderá ser feito através do e-mail joaomoreirasantos@gmail.com

As últimas palavras em Jazz no País do Improviso vão para os muitos que ajudaram a fazer este blogue ao longo dos anos e, sobretudo, para os milhares de leitores em todo o mundo.

A todos, o meu muito obrigado! Foi uma honra poder fazer convosco esta viagem de 9 anos.

João Moreira dos Santos

6 Comments:

At quarta set 19, 02:35:00 da tarde 2012, Blogger El Gato said...

É pena, porque acho que havia muita gente que seguia através deste blog a cena jazzística em Portugal.

 
At quarta set 19, 03:20:00 da tarde 2012, Blogger JMS said...

Obrigado, El Gato, é bem verdade, mas penso que já contribuí 9 anos. Agora é tempo de outros o fazerem. Abraço!

 
At quarta set 19, 07:36:00 da tarde 2012, Blogger Margarida said...

A sério? Fico com muita pena. Foi, de facto, uma grande contribuição para o Jazz nacional. Parabéns pelo trabalho e pela dedicação.

 
At quinta set 20, 12:26:00 da manhã 2012, Blogger MARIA said...

Estou completamente deprimida com este post. Não dá para acreditar no que leio. Toda a vida me defrontei com uma pseudo elite que gosta de me ouvir cantar ....mas " isto , aquilo e aqueloutro...é muito espontânea...muito simplista , socialmente pouco correcta, muito complicada ...independente demais..." Quando não partiam para a inFâmia : canta mal- é um "cover"- é má de contas- falta aos concertos!
NÃO ME IMPORTO. SEI QUE SEM INIMIGOS NÃO SE É NINGUÉM
Com os anos deu para confirmar que as minhas convicções se mantém e que essa gente sofre de um desejo de vassalagem tribal e feudal que JAMAIS terão vinda de mim. Encontrei o meu caminho por amor-próprio e amor ao Jazz.
Como é que tu pensas desistir? Como? Como abandonas as dezenas de músicos que se têm mantido independentes desses grupos gananciosos de poder oligárquico?
Não sabes a falta que fazes? Não sabes o quanto és apreciado? Ou dás mais importância ao que dizem de ti os que não te querem bem nem apreciam?
Somos "partners" no DOSE DUPLA. Fundámos a Jam Session ( Cascais Jazz Club),cantei para ti no VOZES3 e tantas outras coisas fizemos em conjunto...
Sei que , enquanto Académico , tens outras possíveis fontes de rendimento , e que o Jazz atravessa uma crise de Trabalho ( ou falta dele).Por isso o Reconhecimento é mais que nunca importante, pois traz Prestígio e conforto moral.Tenho que te lembrar que há muita , muita gente que não pode perder-te como aliado activo . ESSES - parece-me- é que VALEM A PENA.AOS OUTROS - IGNORA-OS.NADA COMO O tTEMPO PARA ARRUMAR AS COISAS. Já o meu querido pai dizia. E eu subscrevo.

 
At quinta set 20, 02:44:00 da manhã 2012, Blogger JMS said...

Obrigado pelo comentário, Margarida. É sempre bom receber palavras elogiosas. Faz bem à Alma. Um abraço!

 
At quinta set 20, 02:50:00 da manhã 2012, Blogger JMS said...

Maria, como sabes a vida é feita de ciclos e agora é tempo de encerrar o ciclo deste blogue.

Há cerca de 20 anos que estou ligado a este género musical, nove dos quais têm sido praticamente a tempo inteiro.

À medida que o meu papel de criador e criativo se desenvolve, vai também faltando o tempo para a comunicação, pelo menos com a qualidade que sempre tento imprimir ao que faço.

Beijos!

 

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