1 de maio de 2005

O swing de Jandira no Onda Jazz

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JNPDI! assistiu ontem ao concerto de Jandira Silva no clube Onda Jazz, um espectáculo cheio de boas surpresas.

Intitulado "Jazz e Brasil", o espectáculo percorreu 16 temas, desde standards ao cancioneiro do Brasil.

A primeira boa surpresa foi o espaço em si, o Onda Jazz. A fazer lembrar o célebre Saint Germain, de Paris, onde tocaram músicos como Miles Davis, o clube está instalado num edifício do século XV que serviu anteriormente como armazém de cereais. Antes de receber o jazz e outras músicas, este espaço acolhia um armazém de peças de borracha.

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A segunda surpresa não o foi propriamente, já que a voz de Jandira já antes tinha captado e entusiasmado os nossos ouvidos e só nos surpreendeu na medida em que pela primeira vez a ouvimos aqui numa incursão pelos standards.

Influenciada por cantoras como Tierney Sutton, Dianne Reeves, Cassandra Wilson ou Leni Andrade, conforme nos testemunhou, Jandira possui uma voz precisa, bem colocada e suave, e tem swing, o que é fundamental. Assim o provou em temas como "Old Devil Moon" e "Route 66".

O que mais nos agradou, porém, foi a constatação do seu enorme potencial evolutivo, se atendermos a que este concerto representou apenas a sua terceira "aventura" pela terra do jazz. Mais segura, com mais horas de palco no jazz, quem sabe o que pode acontecer... Antevemos não mais do que o melhor.

Para isso, Jandira tem um longo trabalho pela frente, mas tem também uma excelente secção rítmica à sua disposição, o que é meio caminho andado para chegar onde pensamos que pode chegar. Importa agora ouvir as boas vozes do jazz, começando pelas mais antigas, como Sarah, Ella, Dinah Washington, Billie Holiday e depois chegar a um estilo próprio. Como costuma referir Bernardo Moreira, presidente do Hot club de Portugal: se queres tocar como o John Coltrane ouve primeiro o Coleman Hawkins e o Ben Webster. Dito isto, significa tal que o melhor caminho para o futuro é ir ao passado e passar por agora por cima de influências como Jane Monheit ou outras cantoras contemporâneas.

Na sua terra natal, isto é, no cancioneiro do Brasil, Jandira dá cartas num deck pleno de ases e domina o jogo. A sua voz tem o balanço, tem o timbre, tem a simpatia e aquele toque que não se define. É simplestemente divina. Depois, escolhe muito bem o repertório, o que leva o público a brindá-la com grandes salvas de palmas. Foi o que sucedeu, por exemplo, com "Como o chinês e a bicicleta", um original de Joyce que reproduzimos no final deste post.

A este propósito, no que toca aos standards é nossa opinião que a escolha dos temas poderá ser melhorada, o que vai certamente acontecer com o tempo e com mais audição das ditas grandes vozes. Jandira irradia uma natural simpatia e pode e deve capitalizar nesse trunfo com um repertório que tem estado votado ao esquecimento pelas novas vozes do jazz, nacionais e estrangeiras. É, digamos assim, um nicho de mercado.

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A terceira supresa veio da secção rítmica, concretamente de dois músicos que não conhecíamos, o pianista, Victor Zamora, e o baterista Henry Sousa.

Victor Zamora é natural de Cuba e reside em Portugal há cerca de sete anos, acompanhando Jandira noutros projectos. Revelou-se neste concerto um sideman de grande competência e um solista com muitos pontos de interesse, sendo de realçar a sua componente rítmica.

Atrever-me-ia a dizer que a grande surpresa musical da noite veio directamente da bateria de Henry Sousa, um luso-canadiano a residir em Portugal desde tenra idade e que tocou, entre outros, com Nana Sousa Dias, Orquestra do Brilho, da Felicidade e da Glória e ainda com Fernando Pereira, sinal do seu ecletismo musical. Músico essencialmente autodidacta, as suas referências estão em bateristas como Steve Gadd, Jack DeJohnette e Billy Cobham. Impressionaram-nos extraordinariamente o seu drive, o conhecimento dos temas, a técnica, o rigor, a exigência e a sua constante atenção aos companheiros de palco. Em conversa no final do concerto, ficámos a saber que Henry Sousa foi um dos pioneiros da Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, juntamente com José Eduardo, onde ainda hoje lecciona, dizemos nós, para bem dos bateristas da nova geração. Neste concerto, Sousa teve de substituir Bruno Pedroso, aprendendo os 16 temas em apenas dois dias... o que evidencia bem o seu talento. Estranhamente, é um baterista que não tem grande visibilidade na cena nacional do jazz, o que decorre, como o próprio nos confidenciou, da sua necessidade de tocar em diferentes contextos musicais.

Quanto a Yuri Daniel esteve ao excelente nível que já nos habituou nas suas performances, quer com Maria João quer em outros projectos musicais, entusiasmando o público com a sua extraordinária técnica no baixo eléctrico, descendente de músicos como Jaco Pastorius. É sem dúvida o nosso melhor instrumenstista no baixo eléctrico.

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No final do concerto fizemos questão de recordar este momento com uma fotografia com Jandira, cantora na qual apostamos fortemente.

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"Como o chinês e a bicicleta"

Como o chinês e a bicicleta,
Como Cartola e dona Zica,
Como paisagem e um cartão postal.

Como Romeu e Julieta,
Catupiry com goiabada,
Como quem fica junto no final.

Como um navio e o marinheiro,
Como uma fronha e um travesseiro,
Como uma flor e seu perfume.

Como um sorvete e a cobertura,
Não como um quadro na moldura,
Mas como coisa que completa.

Como uma curva e uma reta,
Como o tesão e a ternura,
Como o chinês e a bicicleta....

Como o chinês e a bicicleta,
Como Cartola e dona Zica,
Como paisagem e um cartão postal.

Como Romeu e Julieta,
Catupiry com goiabada,
Como quem fica junto no final.

Como um navio e o marinheiro,
Como uma fronha e um travesseiro,
Como uma flor e seu perfume.

Como um sorvete e a cobertura,
Não como um quadro na moldura,
Mas como coisa que completa.

Como uma curva e uma reta,
Como o tesão e a ternura,
Como o chinês e a bicicleta....

Como o chinês e a bicicleta,
Como Cartola e dona Zica,
Como paisagem e um cartão postal.

Como Romeu e Julieta,
Catupiry com goiabada,
Como quem fica junto no final.

Como um navio e o marinheiro,
Como uma fronha e um travesseiro,
Como uma flor e seu perfume.

Como um sorvete e a cobertura,
Não como um quadro na moldura,
Mas como coisa que completa.

Como uma curva e uma reta,
Como o tesão e a ternura,
Como o chinês e a bicicleta...

4 Comments:

At segunda mai 02, 03:25:00 da tarde 2005, Anonymous Anónimo said...

permita-me que discorde num ponto!
henry de sousa irradiou mau gosto, na minha opiniao. tocou alto, e fora de contexto. fez um solo de 5 minutos que colocou os membros da banda perante visível desconforto. os breaks tinham sabor a pop rock e eram deslocalizados. recordo com desagrado como ele tocou "dindi", como uma máquina de rítmos foleira, e como estragou o momento musical potencialmente interessante, de reencontro entre zamora e seu amigo cubano, tocando um backbeat funk no besame mucho. (a cara de yuri nessa parte é ilustrativa do que eu senti)

 
At segunda mai 02, 04:02:00 da tarde 2005, Anonymous João (BlogMaster) said...

Bem, o tocar alto creio que tem razão, atribuo esse facto à amplificação, que o colocava em cima da voz. Quanto aos solos, creio que de forma geral foram longos, mais do que seria normal quando a estrela é a cantora e o grupo deve apagar-se perante ela. Basta ver os concertos de Ella, Sarah Vaughan ou Betty Carter para ver como tal é prática corrente. Quanto ao encontro com o cantor cubano, como certamente reparou, houve mais quem andasse perdido... Acresce que o baterista, que eu não conhecia de todo, dispôs apenas de 2 dias para aprender 16 temas e fê-lo de forma notável, concerteza não isenta de erros, como aliás o próprio reconheceu, exigente como é consigo, em conversa que tivemos no final do concerto.

 
At segunda mai 23, 04:07:00 da tarde 2005, Anonymous Anónimo said...

O melhor do concerto foi mesmo o som das teclas do pianista, Victor Zamora, o ritmo e a expressão linguistica que consegue transmitir através das suas mãos e dos seus acordes.
Brilhante !

 
At terça jun 28, 11:46:00 da manhã 2005, Anonymous Anónimo said...

jandira Silva volta novamente ao Ondajazz...hmmmm VOLTA NOVAMENTE AO ONDAJAZZ
8 e 9 de julho !!!

 

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