15 de fevereiro de 2007

McCoy Tyner:
"O jazz é uma música aberta"

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A propósito do concerto que McCoy Tyner realiza na Culturgest no próximo dia 24 (por sinal, esgotadíssimo!), retomamos uma entrevista que realizámos há precisamente 10 anos com este pianista histórico, por ocasião da sua passagem pelo Estoril Jazz.

Numa tarde de Julho, na véspera da sua actuação no Festival Estoril Jazz, falámos com McCoy Tyner, pianista virtuoso e lenda viva do jazz. Quando nasceu, em Filadélfia, há 59 anos, Tyner estava longe de adivinhar o seu impacto num género musical que ainda não vivera a revolução Bebop e, sobretudo, no piano. Juntamente com Bill Evans, Tyner foi e é ainda hoje uma referência indelével para os pianistas de jazz. Profissionalmente, iniciou-se ao lado de Benny Golson e Art Farmer, em finais dos anos 50, para logo depois integrar o quarteto de John Coltrane, um dos mais importantes e influentes da história do jazz, no qual se manteve entre 1960 e 1965, levando Coltrane a explorar os meandros do modalismo. Desde então, Tyner assumiu a liderança dos seus próprios grupos, normalmente trios, ou surgiu em bandas All-Stars, ao lado de Sonny Rollins, Ron Carter e Al Foster.

Nesta entrevista, Tyner fala-nos da sua ligação a Golson e Coltrane e, sobretudo, da vida de jazzman, além do seu mais recente trabalho discográfico, «What The World Needs Now», dedicado à música de Burt Bacharach, um compositor cujos temas nunca foram muito populares entres os jazzmen, apesar da admiração confessa de Miles Davis pelo registo tímbrico das suas obras. Embora a incursão de Tyner por terras de Bacharach possa surpreender, a verdade é que já em 1966 o pianista gravara o tema título deste álbum, juntamente com Stanley Turrentine, para a prestigiada Blue Note. Acresce que também Dave Douglas, em entrevista a «O Papel do Jazz», manifestou semelhante interesse por Burt Bacharach, cuja música acaba de ser revisitada por Elvis Costello e alguns músicos de jazz, em disco a editar brevemente pela editora de John Zorn.

Quais foram as suas influências iniciais?

McCoy Tyner - Especialmente Bud Powell e Thelonious Monk e, mais tarde, Art Tatum. Mas Bud Powell viveu no meu bairro durante três meses por isso...

Como foi a sua aprendizagem?

MT - Comecei a tocar piano aos 13 anos. Estudei com dois professores, um para a iniciação e outro que me ensinou piano num nível mais avançado, e formei uma banda de rhythm and blues com colegas de liceu. Depois envolvi-me no jazz moderno e alguns músicos mais velhos ouviram-me, gostaram e começaram a ensinar-me e estudei numa escola de música.

Há quem defenda que o jazz não se ensina...

MT - O jazz é algo que não se pode ensinar na escola. Tem que se aprender música mas depois tem que se viver. O jazz é vida; fala da vida.

E ainda faz sentido tocar jazz?

MT - Sim, claro que faz sentido. É muito pesoal, muito expressivo. Não é uma coisa antiga. Há ideia de que o jazz é algo geracional, mas ele continua a existir e penso que é importante para os jovens porque é uma forma de expressão individual. Existem regras mas podem ser quebradas e alteradas. O jazz é uma música aberta, em oposição a outros géneros de música muito estruturados que existem apenas para excitar as pessoas e são muito preconcebidos.

Da nova geração de pianistas, quais considera mais interessantes?

R - Stephen Scott, Eric Reed, Benny Green, Mulgrew Miller e Cyrus Chestnut (um grande compositor). Temos uma impressionante nova geração de pianistas a aparecer.

Ainda assiste a concertos de jazz?

MT - A verdade é que ja não vou a muitos clubes de jazz porque passo a vida neles e em tournées e quero ir ver outras coisas. Vou ver musicais na Broadway, ballet africano e tento ver coisas diferentes.

A vida de um jazzman é passada a viajar...

MT - Sim, viajo muito, mas gosto de tocar e voltar a casa. Há bandas de rock e de blues que passam 10 meses na estrada! Por exemplo, o BB King, que viaja muito, tem uma camioneta especial que é a sua casa. Eu prefiro a minha casa.

Como é que conheceu John Coltrane?

MT - Bem, eu era muito próximo do John Coltrane. Toquei com ele durante seis anos e conheci-o quando tinha 17 anos. Ele tocava com Miles Davis e uma vez, quando regressou a casa, a Filadélfia, isto por meados dos anos 50, encontrámo-nos, tocámos e ficámos a conhecer-nos. Ele era como um irmão.

O Jazztet apareceu depois...

MT - Eu envolvi-me no Jazztet porque sempre que o Coltrane queria deixar o grupo do Miles Davis para formar o seu próprio grupo o Miles dava-lhe mais dinheiro e ele acabava por ficar. Entretanto, o Benny Golson apareceu e fiquei com ele durante sete meses.

Nunca chegou a trabalhar com Miles Davis?

MT - Não... O Miles juntou-se ao quarteto do John Coltrane uma vez e antes disso veio ouvir-nos durante duas noites. Mas ele tinha um estilo diferente. Eu conheci-o, mas realmente nunca tocámos juntos. Era um homem interessante, com uma boa visão musical.

Como é que planeia os seus álbuns?

MT - Faço o que sinto. Por outras palavras, passo por várias fases e tento contrastar aquilo que faço. Se faço algo como este álbum com cordas, o próximo álbum será um álbum latino, com cubanos. Por isso, eu não trabalho de forma sequenciada ou planeada. Faço um trabalho e depois tento pensar em algo que contraste com aquilo que acabo de fazer. Este meu último álbum foi uma surpresa para muita gente...

Porquê, por ser dedicado a Burt Bacharach?

MT - Porque é diferente. É dedicado ao Burt Bacharach porque nunca ninguém lhe tinha dedicado nada, ao contrário de a outros compositores cujos temas estão sobreproduzidos. Gosto da música dele e gostei de o fazer. Tem um ambiente romântico e tem temas que foram basicamente escritos nos anos 60 por um compositor que ainda está vivo. Não é como Cole Porter ou Richard Rogers, que já morreram. Burt ainda está vivo.

Ainda é possível inovar no piano?

MT - Sim! Bem, eu fiz o que podia para mudar as coisas. Tem de haver uma continuidade e novas vozes. Quando eu apareci havia o Bud Powell, Thelonious Monk e Oscar Peterson e eles encorajavam-me a continuar. Mas eu nunca quis ser igual a nenhum deles porque sei que isso é impossível. Mesmo quando eu era jovem queria tocar as minhas ideias e ter a minha própria voz. Penso que todos temos a nossa voz interior.

E, depois do jazz, o Mundo. Finda a entrevista, McCoy Tyner mostrou-se ainda interessado em conversar sobre a sociedade actual, num diálogo que se arrastou tarde fora e em que participou ainda um elemento da equipa de promoção da Impulse em Portugal. Considerações políticas e sociais de um jazzman que se mostrou crítico com os mass-media: a imprensa, porque não respeita a privacidade das figuras públicas (falou-se, então, da Princesa Diana) e a televisão, porque nivela por baixo e, em resultado da cultura dos media, uma sociedade espectáculo em que mais importante do que as qualidades artísticas são as aptidões para captar a atenção dos media.

A música de consumo também não escapou à análise, considerando-a Tyner demasiado rotinada e preconcebida. Não que o pianista não aprecie outros géneros musicais, nomeadamente o rhythm and blues, como ele próprio "confessou".

Motivo de gargalhadas e de estupefacção geral foi a notícia que lhe dei da existência de um site na internet em que é possível esbofetear as Spice Girls. Virtualmente, claro...

Já o Sol baixava sobre a Baía de Cascais quando nos despedimos de McCoy Tyner, esperançados de o rever brevemente entre nós com a sua música honesta (música pela música, sem vedetismos) e o seu virtuosismo.

O jazz é uma música aberta...

[Entrevista publicada originalmente em «O Papel do Jazz», n.º 2, Livros Cotovia, 1997]


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